acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido
sábado, 3 de agosto de 2013
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Tremores
Quando todas as evidências apontam em uma direção e sua própria consciência consegue acompanhar a lógica da coisa, será que tudo que resta é uma obra fatalista?
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Monstros-da-guarda
É tudo leve, feliz, doce, matinal e aconchegante quanto um comercial de margarina. Eu sei que é. Mas é duro sentir
assim. Porque tudo é calmo. No mundo, nenhum turbilhão que possa afetar
minha existência. Não social ou política, contudo apenas enquanto ser humano. Mas eis
que um grande inimigo insiste em me destruir. Não ficará em paz até me ver no
chão. Será que é um superego muito bem desenvolvido? Me repreendendo? Me
cobrando? O que sinto e o que sou já não está mais sob meu controle, mas dessa
vontade autodestrutiva, incapaz de aceitar a felicidade de bom grado, incapaz
de agradecer as raras coisas boas que a vida oferece, incapaz de tornar
momentos agradáveis algo mais que lembranças distorcidas. Encontrando tantos
defeitos, tantos “o que isso significa?” em uma fala que não deveria ser nada.
De onde vem esse inimigo senão de dentro de mim? De zonas inabitadas,
inexploradas. Tão desconhecidas e obscuras que tenho medo. Sigo na vida
obstinada a decidir quem sou. E, contraditoriamente, me perguntando se não é
melhor fugir. Jamais estar perto do inimigo ou enfrentá-lo? Qual seria a melhor
forma de vencer? Inimigos irreais que são como monstros-da-guarda. Deles não
tenho medo, mas apenas do que me dirão para fazer. Me apavoro somente porque
gosto dos meus monstrinhos pessoais. E me escondo. E fujo. E os abraço, na
maior parte do tempo. Você os ouve, Monize? Sim, só eles entendem a dor que me
causam. Ninguém pode tirá-la de mim. Não se não estiver aqui dentro. É confuso.
Muito. É tudo ao avesso em mim. Quem pode ver meu pequeno comercial de
margarina sem sorrisos?
domingo, 26 de maio de 2013
Orgulho e identidade
Por que o orgulho é tão grande?
Por que ele me sufoca desse jeito? É meu melhor amigo e me faz passar por cima
das pessoas e dos meus próprios sentimentos. Ele não se importa comigo. Eu, por
outro lado, pareço amá-lo, porque não consigo mandá-lo embora. Ele nasceu
comigo e veio pra ficar. Parece que para sempre. Quanto mais eu brigo com ele,
mas ele cresce em mim. Quanto mais eu compreendo algumas coisas, mais ele acha
que sabe tudo e continua permanecendo ao meu lado. Mas, o que eu não entendo é
por quê? Se ele parte meu coração e me impossibilita conquistar tantas coisas
belas. Quantas vezes as coisas seriam diferentes se tivesse passado por cima do
meu orgulho? Quantas brigas eu teria evitado? Quantas pessoas eu teria amado?
Eu não sei. E nunca vou saber enquanto ele estiver em mim. E como, como
mandá-lo embora quando ele já é uma parte tão grande da minha própria
identidade? Ele e eu somos tão íntimos, tão próximos, tão um. Nem me reconheço
sem ele. Viver sem ele é como perder uma parte de mim. Será que a felicidade
exige esse tipo de abandono? Abandonar a si mesmo, para poder construir algo
melhor? Sinceramente, não sei se vale a pena se perder de si mesmo.
sábado, 25 de maio de 2013
Sentimentos desconexos
Olhos fixos miravam numa imagem sorridente. Um coração
acelerado cujos saltos revelavam aflição. Dor. Partida. E reconstrução. Diante
de desafiadores dias insólitos. Uma bandeira flamejando ao vento era consolo
pela lembrança do sonho que representara. Mas havia outros sonhos. Tantos que
não cabiam só naquele mundo. Era preciso coragem para saber aonde ir. E onde
ir? Em frente. Para o alto. Para si. Uma boa xícara de café quente parece um
bom lugar. Mas o frio aparece. Congela. Gela. Inclusive um doce coração. O
mesmo que saltava. Um problema resolvido por um olhar que mira um sorriso.
Sorriso nutrido por palavras simples ditas. Omitidas. Nas entrelinhas, uma
resposta. E duas mãos dadas, sob o caos urbano.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Sobre o amor, etc. - Rubem Braga
"Dizem que o mundo está cada dia menor.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.
Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.
Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.
Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.
E isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dar um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.
Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.
Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc, etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.
Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, elas se vai, e finda.
Maio, 1948 "
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