Foi
uma conversa profunda, rodeada pelo barulho indistinto das caixas de som.
Dentro estava pior. Vários pensamentos aparecem ao mesmo tempo, nenhum se
instala. É uma bagunça imensa. Gritar talvez resolvesse, mas não é um momento
apropriado. Guarde. Limpe essa bagunça. A mente pensa, mas sabemos que não é só
razão aqui. Uma pedra pesada dentro do estômago entrega a verdade. Não dá mais para acreditar nessa história de razão e de emoção, já tem algum tempo que aprendi que elas
trabalham juntas. Só que o incômodo que a emoção provoca no corpo pode não ser
gostoso de se sentir. Foram várias e várias madrugadas para perceber que ter
“se jogado” em tantas histórias pode ter feito o presente, mas estava na hora
de olhar pra frente. Como é possível continuar fazendo as mesmas escolhas? Por
uma esperança que as coisas vão ser diferentes. Histórias se repetindo na sua
vida, na vida dos vários alguéns que você já foi e será. É muito difícil deixar
velhos hábitos para atrás quando você pensa no que poderia estar deixando de ter
no futuro. E você se deixa levar. Quantas bocas é preciso beijar para se
perceber que a solidão é sua única companhia? Sua única certeza. Sua única
amiga. E, ainda assim, sempre foi meu maior medo. Todas essas pessoas que você
ama. E aquelas que você quase amou. Por um segundo você disse que houve uma
conexão especial, mas nada disso é verdade. Ninguém pode entender quem você é
por dentro e por mais que cheguem perto, não é o bastante. Não dá para ignorar
essa intuição. Ela sempre esteve aqui.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
domingo, 9 de agosto de 2015
Telegrama - Zeca Baleiro
Eu tava triste
Tristinho!
Mais sem graça
Que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só
Sozinho!
Mais solitário
Que um paulistano
Que um canastrão
Na hora que cai o pano
Tava mais bobo
Que banda de rock
Que um palhaço
Do circo Vostok
Mas ontem
Eu recebi um Telegrama
Era você de Aracaju
Ou do Alabama
Dizendo:
Nêgo sinta-se feliz
Porque no mundo
Tem alguém que diz:
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito muito te ama,
que tanto te ama!
Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria
Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria
Mama! Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu papa!
Eu tava triste
Tristinho!
Mais sem graça
Que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só
Sozinho!
Mais solitário
Que um paulistano
Que um vilão
De filme mexicano
Tava mais bobo
Que banda de rock
E um palhaço
Do circo Vostok
Mas ontem
Eu recebi um Telegrama
Era você de Aracaju
Ou do Alabama
Dizendo:
Nego sinta-se feliz
Porque no mundo
Tem alguém que diz:
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito te ama!
Que tanto, tanto te ama!
Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria
Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria
Me dê a mão vamos sair
Pra ver o sol!
Mama! Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu papa!
Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria
Mama! Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu papa!
"Me dê a mão vamos sair
Pra ver o sol"
Para aquecer
A noite estava escura. O céu cobria
o vilarejo em cinza. Várias pessoas pelas ruas. Os sons dos carros competindo
por atenção. Nada disso importa. O mar chama. Aqueles corpos vão atender seu clamor.
A pele sente o frio que o vento traz, a areia ainda úmida sob os pés descalços.
Sal e metal, sabores que queimam as narinas. Um passo, uma marola. Dois passos, água
até os tornozelos. Três, quatro, cinco... quarenta passos, quadris molhados. A
água está quente. É possível sentir a energia do sol que já se pôs. Essa energia
agora é dos corpos. Eles mergulham até cobrir o último fio de cabelo. À emersão, as roupas grudam-se à pele, desenhando-a. Uma corrida até a areia. Uma corrida
pela areia, para aquecer.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Home
No horizonte um pedaço do céu se
colore num dourado-pôr-de-sol, contrariando a escuridão que lhe faz pano de
fundo. Nunca havia parado pra pensar na perspectiva de que aquilo poderia ser o
reflexo das luzes de uma cidade se aproximando. Olhando com mais atenção, percebo
que são nuvens acima de uma cidade que já nem sei mais qual. O carro está mais
silencioso que o normal sem a voz da minha mãe pra quebrar a monotonia da
noite. Apenas alguns metros de estrada esburacada são visíveis à frente. Meu
pai boceja com frequência, deixando transparecer o cansaço de um dia de viagem.
Vez por outra conta uma piada que nos faz gargalhar, o tipo de risada sincera
que você não costuma ver por aí. Não na cidade grande. No rádio improvisado
toca Zé Ramalho, Avohai, o único gosto musical que poderia agradar nós dois.
Mergulho na minha infância. Relembro meus primos com quem convivi durante toda
minha vida e agora representam conversas escassas entrecortadas tempo afora.
Relembro brincadeiras de criança a muito perdidas. É um sentimento bom de
coisas que nunca voltarão. Quem diria o rumo que nossas vidas tomariam? E cá
estou eu, com 20 anos, voltando pra casa. Há inúmeras coisas que se perderam de
mim. Isso ultrapassa, é claro, o meu sotaque, há muito desfeito. Cada metro que
me aproxima da minha origem só me mostra quem já não sou. Sinto falta disso. Já
não há o sentimento de pertencer. Não há raízes. Me pergunto se a música
provoca os mesmos sentimentos no meu pai. Mas percorremos em silêncio o
restante do trajeto, lutando contra o sono. Seguindo agarrados a ideia do
conforto de chegar em casa.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Sob o pré-córdio
Um corpo deita numa cama. Sem roupas, sem esperança e sem convicções. Nu. Completamente nu. Existindo. Se há um sentimento de calma em algum lugar é dentro do corpo. No cérebro. Mas esse corpo já não sabe que vias neurológicas ativar para se sentir bem. TUM TÁ, ele ouve. E eis que a resposta possa ser o famoso coração. Um estetoscópio pousa sobre o foco aórtico... pulmonar... tricúspide... mitral... 81 batimentos por minuto. Nada mau, o cérebro pensa. Nada mal para um corpo sedentário. O som é hipnotizante. Forte, claro, rítmico. Cada batimento representa o sangue pulsando, percorrendo aquele corpo, o nutrindo, o limpando. E pra quê? Para que ele se perca vida afora? O corpo vê a si mesmo e se ouve. O coração não para nunca. O cérebro tampouco. O ruído do ar entrando pelas vias respiratórias se mistura ao TUM TÁ. Os pulmões se enchem. Oxigênio e gás carbônico trocam de lugar. O cérebro pensa que todas as células vivendo juntas, como um só ser, podem ser só células acreditando ser alguém. Um monte feito de células se arrastando em meio a um mundo microbiológico dominado pelas bactérias, as verdadeiras donas do mundo. Elas diriam: "não há ninguém aí, amontoado de células". Tudo o que ele faz é dividir tarefas e tentar sobreviver. Contraindo as pupilas cada vez que a luz bate nelas. Protegendo a pele da radiação UV, com a melanina. Usando o oxigênio do ar para obter energia e, depois, se livrando dele o mais rápido possível para que ele não mate o corpo. Pagando com ATP cada movimento visível ou não. Até o corpo precisa de uma moeda para pagar os custos. Cada coisa mínima, como alterar a conformação de uma proteína, ou cada coisa complexa, como o batimento rítmico do coração, existe para nos permitir viver aqui, nesse pequeno grão de areia Terra. Mas às vezes o corpo repousa nu sobre a cama sentindo a maciez desta, ouvindo o barulho da chuva, vendo os raios cortarem os céus, saboreando os resquícios de uma pasta de dentes sabor menta e sentindo o cheiro de sabonete. Quando ele sente o próprio pulsar, o calor que carrega, os ruídos de si mesmo, a própria vida que representa, quando ele apenas é... Ele percebe que o pensamento pode ter sido um acidente evolutivo, que faz tudo parecer um grande nada.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Fluxo
Era cortante aquela dor. Queria um pouco mais de doçura. Um
pouco mais de compreensão. Mas eu nunca fui boa nisso. Até as palavras fogem de
mim agora. E no meu mundo sinto-me só. Nada é o bastante. A raiva nunca passa. Apenas
se transfere. Ultimamente já não durmo amaldiçoando a vida. A mesma que quero
viver. Olho o contorno cortante do espelho e me pergunto se eu teria coragem.
Choro por culpar a mim mesma. Se eu não sorrio é por minha culpa. Se você não
sorri a culpa deve ser minha também. Eu queria esquecer minhas angústias, mas
elas só se acumulam dentro de mim. Eu as confronto sob todas as perspectivas e
ainda assim a solução me foge por entre os lábios. Às vezes eu procuro um ‘eu
te amo’ em um abraço ou em uma conversa, mas ele nunca vem. Em alguns momentos
posso vê-lo, mas ele quase nunca me alcança, pois meu escudo o repele. Uma
palavra me machuca. Um olhar ‘errado’... Eu não consigo respirar nesse corpo.
Vejo as pessoas partindo, voltando para suas próprias vidas. Pouca gente fica. Às
vezes me pergunto se restou alguma porta pra mim. Sono, esquecimento, loucura e
morte? Passei por todas e nenhuma delas. Estou no limbo. Trancada. Sufocada.
Exausta. Nenhuma mão vai me salvar. Eu estou a beira do precipício. Mas está
escuro, ninguém pode me ver.
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