No silêncio da noite, enquanto ele dormia, ela chorava baixinho. Tentava conter, em vão, o pensamento sobre aquele dia. Quando ele contou alegremente, sobre o motivo da desgraça dela. Coitado. Não sabia. Mas ela sentiu. E jurou que havia acabado para sempre. Miserável. Acreditava que podia controlar aquele sentimento indomável. Pobre atormentada.
Ao amanhecer, levantou como se nada tivesse acontecido. A noite passada, cheia de lembranças, nunca existiu, afinal. Com o nascer do sol, renasceu a esperança: talvez pudesse agora livrar-se daquela sensação de dependência.
Seguiu para o trabalho alheia a vida. Ignorava tudo e todos a sua volta. Estava imersa em pensamentos e sonhos. As coisas poderiam ter sido muito diferentes. Não foram. Uma lástima. Mas nada que valesse uma vida de sofrimento.
No trabalho, preparou um sorriso. Sim, preparou. Como se prepara um bolo, passo a passo; como se prepara roupa maquiagem cabelo antes de uma festa. Preparou o rosto. Eram todos tão indiferentes... Ninguém perceberia. Melhor assim. A dor seria sua, só sua. E ninguém iria interferir. E à noite poderia voltar a chorar baixinho, imaginando se alguém um dia perceberia.
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