quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sobre o amor, etc. - Rubem Braga

"Dizem que o mundo está cada dia menor.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.
Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.
Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.
Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.
E isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dar um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.
Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.
Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc, etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.
Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, elas se vai, e finda.

                                                                                                                Maio, 1948   "

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

E mais uma vez é fim de ano..

                  Odeio final de ano. É deprimente em todos os sentidos. Representa bem a hipocrisia da sociedade em que vivemos, uma vez que a maioria das pessoas vê essa época como sendo especial e na qual devemos ser solidários e criar a expectativa de um mundo melhor. Que lindo! Não fosse o fato de que tudo isso não passa da mais podre demagogia. Quantos são aqueles que realmente se dispõem a mudar? A fazer do mundo um lugar melhor? E a começar a evoluir na esfera pessoal? Se fosse só isso, talvez não me sentisse tão exaurida. Contudo, há ainda o fato de que o real sentido que essas festas deveriam ter, na prática, não existe. Dizem que o Natal é uma festa cristã, mas o que se vê por aí é mais um dos rituais capitalistas "consuma consuma consuma". Nem vou entrar em pormenores sobre a imposição cultural norte-americana demonstrada claramente aqui. Aliás, nem sei o porquê de estar perdendo meu tempo com esse texto que quase ninguém vai entender. Acho que é mais um pequeno desabafo. Eu gostaria mesmo que essa época pudesse ser tão linda quanto parece, que as pessoas pudessem se transformar a partir das suas expectativas para o ano novo e que a humanidade realmente se esforçasse para mudar para melhor. Entretanto, esses são apenas alguns desejos meus, os quais vejo tão longe de serem realizados. Não farei promessas para 2013, porque talvez possa quebrá-las, o que muito me frustaria. Ao invés disso, me contentarei apenas em analisar o que me aconteceu   em 2012, para que assim, talvez, possa me mudar a partir os meus erros. Precisamos parar e pensar, apenas. Afinal, como disse Platão, "uma vida não questionada não merece ser vivida".

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Palavras medíocres

           Nunca sabemos o que falar, para ser bem sincera. Sempre fui da opinião de que sentimentos são grandes demais para caberem em palavrinhas tão poucas. No fim, de que elas valem mesmo? São apenas uma dentre as inúmeras formas que temos de expressar a importância de algumas pessoas em nossas vidas. Assim, chego à conclusão que serão proferidas medíocres palavras, numa vã esperança de poder expressar algo.
           Você? Não sei. Não dá para definir, não dá para explicar. Aliás, sempre essas são as pessoas mais interessantes. Não conseguimos entendê-las. Acho você assim (todo mundo é, na verdade). Mas acho você mais. Paradoxal, até. O que por um lado é bacana.
           Sei lá. Estou muito cansada agora. Porém não dava para deixar para amanhã. Aquela história de pensar no presente, sabe?
           O que estou tentando dizer é que se existem pessoas que tem o dom de mexer com nossas vidas você é uma delas. Agora, sinto como se você estivesse partindo. Acho que está. E só queria agradecer sua presença iluminando meus dias, você me protegendo (embora aqui faça uma ressalva: nossos conceitos de proteção são bem diferentes) e estando ao meu lado em momentos que talvez não tenham sido os meus melhores como pessoa.
           Então que fique dito: te desejo tudo de bom. De verdade. Que você encontre, antes de tudo, felicidade nas suas escolhas; já que elas lhe pertencem totalmente. Não existe o certo e o errado quando o assunto é esse. Há apenas o bom ou ruim para nós.
           Que você realize teus sonhos. Um beijo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A palavra e o sentimento.. Ah, o amor!

       Ah, o amor!
             Eu realmente acredito no amor. Mas no amor sentimento e não no amor palavra. Meio confuso? Pois eu explico, quase de maneira metalinguística.
              Eis que hoje, andando pelos aposentos da minha casa, quando na verdade deveria estar estudando, pego-me tendo devaneios acerca do significado que a palavra amor tem na sociedade moderna. Minha conclusão é que essa palavra não tem o menor valor. Porém, repito: a PALAVRA, não o sentimento.
              Há um certo tempo, principalmente com a massificação da Internet, convencionou-se   "amar" todo mundo. Que lindo sentimento! Não fosse isso mais que uma mera "modinha". E assim, "eu te amo" virou "bom dia boa tarde oi como vai você?". Tudo no mesmo pacote. Adicione-me numa rede social e ganhe de brinde... Meu amor!
              Entretanto, o que me sufoca, verdadeiramente, é que fugir da moda é impossível. Não que eu seja contra seguir tendências, até porque dificilmente conseguiria, mas até ser contra-modinha tornou-se uma moda.
               Assim, surgiu uma outra corrente: não diga "eu te amo" ou morrerás na fogueira. Confesso, por um bom tempo pertenci a essa parte. Agora, tento me desvincular dessas ideias pré-concebidas, tentando me emancipar como ser humano - processo longo, possivelmente infindo.
               O fato é que vi tanto desconhecidos quando pessoas da minha mais alta estima desacreditando do amor. Por um tempo até achei isso natural. Hoje, porém, me assusta a constatação de tal pensamento.
               Eu me incomodo com ambas perspectivas supracitadas e justamente por isso queria me refugiar o mais longe possível delas. Como sair do planeta não me parece viável no momento, tentei encontrar definições ou respostas que satisfizessem esse desejo. 
               Cheguei a uma conclusão, não definitiva, que não posso definir o amor. Seria injusto com ele e comigo. Porque não dá para colocar algo tão grande em palavras insignificantes e que não têm valor algum, especialmente no mundo de hoje. Pensei que as pessoas que eu mais amo, são aquelas para as quais eu menos manifesto o meu afeto - e, quando o faço, em geral soa forçado, até fingido. Quem eu amo não precisa das minhas palavras, assim como o contrário também é verdadeiro.
                  Dessa maneira, parafraseando uma das minhas professoras, chego a conclusão que, realmente, pode ser que o amor seja a única razão da vida!

Carta para um anjo em minha vida

      É meu caro D. andei pensando na nossa conversa. Você estava certo. Basta nossos corações serem partidos uma única vez e está tudo perdido. Recolhemo-nos dentro de nós mesmos. E nessa solidão "forçada" crescemos. Inevitavelmente, isso acaba sendo fatal.
        O tempo passa e esse sentimento só se agrava. Surgem dúvidas e incertezas que machucam. Instalam-se aqui dentro e recusam-se a ir embora, por mais que se tente convencê-las.
       Claro que o processo tem seus lados bons: além de "filtrar" muitas coisas ruins da nossa vida, ensina-nos a identificar o mal, onde quer que ele esteja.
      Creio, contudo, que esse último ponto causa muito estrago. Pelo menos em mim causou. Saber o que é bom ou ruim nos torna obsessivos. Vemos a mentira até onde não há. E todos são culpados, até que provem o contrário.
        Agora, talvez, seja muito tarde, mas do fundo do meu coração desejei ser o mais alienado de todos os seres. Acho que, pelo menos assim, poderia veemente ignorar a mim.
       Queria ingenuidade suficiente para acreditar que as coisas vão melhorar. Não vão. Não enquanto não me resolver com uma certa pessoinha, que mora em mim, que controla a mim. Porque sim, nem eu compreendo o que ela quer.
       Por fim, só queria dizer que refleti profundamente sobre o que foi dito. Você me faz muita falta. Você entende. Mas apesar de todas as dúvidas, decidi o que fazer. Eu sempre fui meio boba mesmo. Agora eu vejo o certo. O melhor é ser fiel aos meus ideais, mesmo que isso me custe muito mais. Muito obrigada.

                                                    Da sua amiga que te ama, profundamente,
                                                                                                                                 Nize.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Devaneio da meia-noite


No silêncio da noite, enquanto ele dormia, ela chorava baixinho. Tentava conter, em vão, o pensamento sobre aquele dia. Quando ele contou alegremente, sobre o motivo da desgraça dela. Coitado. Não sabia. Mas ela sentiu. E jurou que havia acabado para sempre. Miserável. Acreditava que podia controlar aquele sentimento indomável. Pobre atormentada.

Ao amanhecer, levantou como se nada tivesse acontecido. A noite passada, cheia de lembranças, nunca existiu, afinal. Com o nascer do sol, renasceu a esperança: talvez pudesse agora livrar-se daquela sensação de dependência.

Seguiu para o trabalho alheia a vida. Ignorava tudo e todos a sua volta. Estava imersa em pensamentos e sonhos. As coisas poderiam ter sido muito diferentes. Não foram. Uma lástima. Mas nada que valesse uma vida de sofrimento.

No trabalho, preparou um sorriso. Sim, preparou. Como se prepara um bolo, passo a passo; como se prepara roupa maquiagem cabelo antes de uma festa. Preparou o rosto. Eram todos tão indiferentes... Ninguém perceberia. Melhor assim. A dor seria sua, só sua. E ninguém iria interferir. E à noite poderia voltar a chorar baixinho, imaginando se alguém um dia perceberia.

sábado, 29 de setembro de 2012

Amor hipócrita

     Sem dúvidas, caro amigo, o mundo precisa de mais amor. Amor que nenhum de nós conhece. Amor que é humano de mais. A verdade é esta: como tudo em nossas vidas, as relações afetivas também são baseadas em interesse. Pense em quantas pessoas sabem quem você é de verdade? Não é que sejamos mentirosos, somos simplesmente dissimulados. Não há intenção de enganar os outros, na maioria das vezes, apenas de nos relacionar como a sociedade impõe que seja. E, por mais que você tente fugir das tradições, das hipocrisias, da alienação não adianta uma vez que você também é parte da sociedade. Não há como fugir disso e ponto.
      Eu não estou falando que esse tipo de amor não exista. Contudo, ainda não conheci uma só alma viva que o tenha praticado. E, mesmo assim, eu acredito nelas. Estão por aí, praticando o altruísmo para com aqueles que mal conhecem. Existem. Só que estão muito distantes da nossa realidade alienada. Caso não tenham percebido, cada um de nós - mesmo os mais críticos, os mais artísticos etc - segue a vida acreditando fazer suas próprias escolhas quando, na verdade, não fazem mais do que ser guiado pelo sistema. Você tenta lutar, mas está acorrentado pelo sistema.
      Lá vou eu falando de sistema de novo, misturando as coisas. Porém, acho que a vida é meio assim: uma mistura de coisas, que são tão inseparáveis, que fica até difícil distingui-las.
    Enfim, só mais um devaneio da minha mente atormentada pelas questões sem solução. Sincera-mente, espero poder praticar esse tipo de amor algum dia. E que mais esse sonho não seja também roubado de mim, como tantos outros já foram.