terça-feira, 12 de junho de 2018

Sous le ciel de Paris






Ali, deitada sobre uma manta florida, ao som de sua playlist preferida, semicerrou os olhos. Ainda podia ver a luz laranja do entardecer invadir o quarto, dando a ele um aspecto quase místico. Seria um dia adequado para acender um incenso, mas não havia nenhum por ali. Deixou a música envolvê-la e mergulhou num som cada vez mais distante, até que seus olhos se fecharam completamente.
Sentado numa fonte em Paris, ele observava a cidade. Quem eram aquelas pessoas? Fechou os olhos por alguns segundos, mas, de alguma forma, havia escurecido. Uma brisa leve balançou seus cachos e se emaranhou por entre sua barba. Por mais que aquele olhar observasse o mundo, o que ele realmente observava era o próprio interior. A solidão era gostosa e dolorosa demais. No fone de ouvido, uma música tocava... meu amor, essa é a última oração
para salvar seu coração. A música se tornou mais alta e parou de repente. Ainda pensava sobre o sonho que acabara de ter. Ela tateou no escuro, em busca de realidade. Mas havia transcendido. Ou talvez sido parte de um sentimento que perpassou situações, pessoas, continentes e tempo. Que mudou, se adaptou e agora vive como parte do quem era. 
O celular notifica uma mensagem. Um rapaz, sob o céu de Paris, digitou:  “advinha com o que sonhei?”. 
É, eu sei.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Oceano

Não queria me sentir assim, como uma adolescente em crise. Mas uma parte em mim insiste em reviver o passado. Meu grande pecado. Me prender a todas essas coisas. Como todas aquelas cartas e fotos antigas. Mais de um amigo me disse que era deprimente guardar aquilo. Quanto apego! Mas o passado também é parte de mim. Que me faz ser seja lá o que eu for.
Gosto dessa perspectiva, meus dedos deslizando pelo teclado. É uma confissão horrível. Uma traição ao movimento. Mas escrever numa folha com um lápis, sempre foi mais sofrimento que libertação. Aqui não, o infinito se estende diante de mim. O barulho do teclado é como se concentrar na própria respiração enquanto se medita.
Mas eu estava falando sobre o passado e como é perigoso sair pra nadar nas lembranças. Encontrar o ponto de equilíbrio temporal é o desafio. Carpe diem, eles dizem. Eu tento, desesperadamente. Carpe diem é minha oração. Por um tempo. Depois fica vazio demais. Quando você joga fora o passado todo dia e Carpe diem, quando você não pensa sobre o futuro e carpe diem, o que sobra? Agora é só o que você é. Só o que você tem. Ser é maravilhoso. Mas se não tiver passado ou futuro, talvez você também só esteja. À deriva, no oceano presente. Tantos náufragos ao redor. Posso sentí-los. Espero que tenham tábuas.

domingo, 29 de janeiro de 2017

1 segundo

O brilho da noite se esgueira pela janela. O vidro completamente transparente permite a entrada de uma luz amarelada. O quarto tem sua escuridão violada. O céu, por outro lado, esconde suas estrelas. Uma música toca ao fundo, mas quase não posso ouví-la. Concentro-me no som da minha respiração. O ar percorre as vias aéreas e preenche os pulmões. O universo se expande em mim e depois vai embora. O cheiro de incenso alimenta minha mente e ataca minha rinite. A cidade silencia. Quantos dormem, enquanto o universo os nina?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Nota sobre o fim das férias

Morar fora é como destruir um pedacinho de si mesma para caber a nova pessoa que tu é. Estar na terra natal é como estar envolto nos braços da tua mãe. Só que isso também não é mais suficiente, porque tu sente saudades da nova casa. Mas ao chegar lá, teu coração fica vazio. Ah... essa primeira noite é sempre a mais triste. Nenhuma música, nenhum filme ou mesmo um livro enriquece a solidão. Porque tem toda esta saudade no peito. Nada nem ninguém é capaz de preencher o espaço deixado por aquele você que já não existe.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Diálogos de um sábado qualquer

- Oi, tudo bem?
- Quanto tempo não é mesmo?

Risos sem graça. Abraços sem jeito.

Mas... será que você não estranha esse distanciamento? Será que as vezes não sente essa vontade que eu sinto de te fazer um cafuné?
Por que não faço?
Ah, sabe como é... tem uma certa convenção social que fala que não é tão legal ficar por aí afagando a cabeça de outras pessoas assim, do nada.
Não me olha assim.
Eu sei que não devia me importar com esse tipo de coisa, mas eu também não devia sentir esses desejos.

Só que hoje eu quando eu abri meus olhos, você foi a primeira coisa que eu pensei. Estranho né?
Quer dizer.. de certa forma, suponho que seja natural. 
Na verdade hoje eu acordei e eram seus olhos vendo o mundo. Hoje acordei um pouco você. E eu gosto disso. De me perder um pouco.
Mas eu queria te fazer uma pergunta.

Deixa eu bagunçar você?


- Bom te ver.
- A gente vai se falando.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Ipês

Primeiro eu gritei. Comigo e com o mundo. Depois veio o nada. Olhei através da janela: as grades mais do que nunca se tornavam parte principal da paisagem. Buscava beleza, algo em que me agarrar. Mas tudo era cinza. Onde outrora havia uma alameda de ipês rosas, agora só restavam galhos secos, sem uma folha sequer. Pensei em desistir dos planos. Desisti de um. Ou dois. Mas continuei com outros e segui. Depois, veio a calma. Ah, a calma. Quão deliciosa é essa perspectiva.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Honestidade

Há algum tempo venho sacrificando a mim mesma em prol de ser uma adulta. Demorei um tempo para perceber isso. Mas um dia eu parei, olhei bem para mim mesma e pensei em quanto eu havia mudado. Me orgulhei do meu “amadurecimento” por um tempo, mas a verdade é que nem tudo foram flores. Onde estavam meus momentos de abstração? De sonhos sem sentidos? De imaginar situações loucas? De imaginar dramas pessoais que me levam a uma catarse? Cadê o momento choro-purificação semanal? Cadê as danças noturnas no pijama? Onde está o momento de ouvir o barulho das folhas secas sob os pés? Onde estava cada pequena coisa que me fazia eu, pelo menos para mim. Era como se eu fosse só um corpo, cumprindo suas tarefas. Uma casca oca. Muitas coisas precisaram acontecer para eu perceber o quão perdida eu estava (e ainda estou). E tentar retomar cada pequena ação diária que faz eu me sentir tão bem. É engraçado pensar isso porque com toda essa febre de signo, eu diria que é contra minha natureza pisciana não sonhar, não me abstrair da realidade. Eu diria isso, claro, se eu acreditasse nisso. Talvez tenha sido um processo de adaptação a novas realidades, responsabilidades, a aprender a lidar com a solidão de ser um humano.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Lágrimas no estudante

O que fazer quando só há a dor? Quando a solidão te assola? Quando quem você mais ama tem outras preocupações? Quando seus melhores amigos estão tão cansados quanto você? Quando quem poderia te consolar só é capaz de dizer "é, hoje meu dia foi difícil também"? Quando não há tempo para lágrimas? Ah... as lágrimas! Sempre me lembro da fala de uma amiga, certo dia, dizendo que entre choros e soluços, de cansaço, se pôs a estudar pensando que o estudante de medicina precisava chorar estudando, dado nosso tão pouco tempo livre. Cada dia mais tenho certeza disso. Do tempo que me falta pra chorar. E da culpa que sinto em meio a dor. "Eu sei que não devia estar chorando. Preciso estudar". Essa semana uma professora usou a expressão "intensificação do ritmo de trabalho", talvez o mais correto fosse "intensificação do ritmo de vida". Não há tempo N-E-M-P-R-A-C-H-O-R-A-R! Acho que é a culpa que nos consome. A vontade de ser melhor, mesmo já dando o melhor de si. Nunca é o que "no que você é bom?", mas sempre "no que você não é?". Na rua estão todos bem, será que em casa eles choram também?
O que te falta? Em mim, a liberdade. Que minhas lágrimas tenham o direito de rolar face abaixo, sem se incomodar se molharam o livro!

domingo, 29 de novembro de 2015

Possibilidades

Há três anos, um jovem rapaz de barba cheia se aproxima de uma menina de olhos castanhos sentada na primeira fileira da classe. Ele segura um livro de astrologia e, após hesitar um segundo, resolve sentar ao lado da moça. Não se sabe ao certo quem nem porquê, mas começaram a falar sobre astrologia.
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Há dois anos, um jovem rapaz sem barba passa pela rua de mãos dadas com uma moça. Param num ponto de ônibus e se abraçam. No banco uma senhora sentada com o netinho e duas moças conversando trivialidades. Uma das moças observa o rapaz, o acha bonito e se pergunta sobre a história daquele casal. Ele vê a moça por um instante e observa que seus olhos são muito castanhos e refletem a luz das árvores. Segundos depois a moça de olhos castanhos entra no ônibus. Nenhuma daquelas pessoas volta a se encontrar.
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Há um ano, uma moça bebe uma mistura de vodka e refrigerante numa festa da faculdade. Parece que se perdeu e está a procura de alguém. Avista uma silhueta familiar e vai em sua direção. Pega no braço do rapaz e pergunta por onde ele andou, que ela tinha tentado telefonar mas ele não atendia. O moço se vira e ela percebe que foi um engano. Uma barba densa a encara, sorri e é gentil com o erro. Os olhos castanhos se envergonham, mas não podem deixar de rir. Nasce ali uma conversa entre estranhos.
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Há um mês, uma garota de olhos castanhos e jaleco branco e dirige ao corredor portando um prontuário. Chama por o nome de um jovem e aguarda. Um rapaz sério, com barba grande e cabelo ondulado se aproxima. Se apresentam e seguem em silêncio até a sala. Lá, começam uma conversa sobre os problemas dele. Está triste. Ela não consegue lidar com aquele sintoma emocional e se confunde com as perguntas a se fazer. Ele parece impaciente, mas tem compaixão com aquela estagiária, ou seja lá o que ela seja. Seguem a consulta tentando entrar em sintonia, mas ela parece fugir deles.
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Dez anos depois, uma mulher de olhos castanhos está sentada num portão de embarque no aeroporto, um rapaz barbudo senta-se a duas cadeiras de distância. Ela lê um livro impaciente com o retorno para casa. Ele fala ao telefone com alguém e pede-lhe que venda as ações. A mulher observa o homem mais de perto: o seu tipo. O voo é cancelado. "Ótimo", suspiram juntos. E então um sorriso. De repente, um outro homem se aproxima e senta-se ao lado da mulher. Se beijam e se põem a conversar sobre os filhos. O rapaz barbudo volta ao telefone, se perguntando se já viu aquela mulher em algum lugar.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Sobre a solidão



Foi uma conversa profunda, rodeada pelo barulho indistinto das caixas de som. Dentro estava pior. Vários pensamentos aparecem ao mesmo tempo, nenhum se instala. É uma bagunça imensa. Gritar talvez resolvesse, mas não é um momento apropriado. Guarde. Limpe essa bagunça. A mente pensa, mas sabemos que não é só razão aqui. Uma pedra pesada dentro do estômago entrega a verdade. Não dá mais para acreditar nessa história de razão e de emoção, já tem algum tempo que aprendi que elas trabalham juntas. Só que o incômodo que a emoção provoca no corpo pode não ser gostoso de se sentir. Foram várias e várias madrugadas para perceber que ter “se jogado” em tantas histórias pode ter feito o presente, mas estava na hora de olhar pra frente. Como é possível continuar fazendo as mesmas escolhas? Por uma esperança que as coisas vão ser diferentes. Histórias se repetindo na sua vida, na vida dos vários alguéns que você já foi e será. É muito difícil deixar velhos hábitos para atrás quando você pensa no que poderia estar deixando de ter no futuro. E você se deixa levar. Quantas bocas é preciso beijar para se perceber que a solidão é sua única companhia? Sua única certeza. Sua única amiga. E, ainda assim, sempre foi meu maior medo. Todas essas pessoas que você ama. E aquelas que você quase amou. Por um segundo você disse que houve uma conexão especial, mas nada disso é verdade. Ninguém pode entender quem você é por dentro e por mais que cheguem perto, não é o bastante. Não dá para ignorar essa intuição. Ela sempre esteve aqui.

domingo, 9 de agosto de 2015

Telegrama - Zeca Baleiro



Eu tava triste
Tristinho!
Mais sem graça
Que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só
Sozinho!
Mais solitário
Que um paulistano
Que um canastrão
Na hora que cai o pano
Tava mais bobo
Que banda de rock
Que um palhaço
Do circo Vostok

Mas ontem
Eu recebi um Telegrama
Era você de Aracaju
Ou do Alabama
Dizendo:
Nêgo sinta-se feliz
Porque no mundo
Tem alguém que diz:
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito muito te ama,
que tanto te ama!

Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Mama! Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu papa!

Eu tava triste
Tristinho!
Mais sem graça
Que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só
Sozinho!
Mais solitário
Que um paulistano
Que um vilão
De filme mexicano
Tava mais bobo
Que banda de rock
E um palhaço
Do circo Vostok

Mas ontem
Eu recebi um Telegrama
Era você de Aracaju
Ou do Alabama
Dizendo:
Nego sinta-se feliz
Porque no mundo
Tem alguém que diz:
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito te ama!
Que tanto, tanto te ama!

Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Me dê a mão vamos sair
Pra ver o sol!

Mama! Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu papa!

Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Mama! Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu!
Quero ser seu papa!

"Me dê a mão vamos sair
Pra ver o sol"

Para aquecer

A noite estava escura. O céu cobria o vilarejo em cinza. Várias pessoas pelas ruas. Os sons dos carros competindo por atenção. Nada disso importa. O mar chama. Aqueles corpos vão atender seu clamor. A pele sente o frio que o vento traz, a areia ainda úmida sob os pés descalços. Sal e metal, sabores que queimam as narinas. Um passo, uma marola. Dois passos, água até os tornozelos. Três, quatro, cinco... quarenta passos, quadris molhados. A água está quente. É possível sentir a energia do sol que já se pôs. Essa energia agora é dos corpos. Eles mergulham até cobrir o último fio de cabelo. À emersão, as roupas grudam-se à pele, desenhando-a. Uma corrida até a areia. Uma corrida pela areia, para aquecer.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Home



No horizonte um pedaço do céu se colore num dourado-pôr-de-sol, contrariando a escuridão que lhe faz pano de fundo. Nunca havia parado pra pensar na perspectiva de que aquilo poderia ser o reflexo das luzes de uma cidade se aproximando. Olhando com mais atenção, percebo que são nuvens acima de uma cidade que já nem sei mais qual. O carro está mais silencioso que o normal sem a voz da minha mãe pra quebrar a monotonia da noite. Apenas alguns metros de estrada esburacada são visíveis à frente. Meu pai boceja com frequência, deixando transparecer o cansaço de um dia de viagem. Vez por outra conta uma piada que nos faz gargalhar, o tipo de risada sincera que você não costuma ver por aí. Não na cidade grande. No rádio improvisado toca Zé Ramalho, Avohai, o único gosto musical que poderia agradar nós dois. Mergulho na minha infância. Relembro meus primos com quem convivi durante toda minha vida e agora representam conversas escassas entrecortadas tempo afora. Relembro brincadeiras de criança a muito perdidas. É um sentimento bom de coisas que nunca voltarão. Quem diria o rumo que nossas vidas tomariam? E cá estou eu, com 20 anos, voltando pra casa. Há inúmeras coisas que se perderam de mim. Isso ultrapassa, é claro, o meu sotaque, há muito desfeito. Cada metro que me aproxima da minha origem só me mostra quem já não sou. Sinto falta disso. Já não há o sentimento de pertencer. Não há raízes. Me pergunto se a música provoca os mesmos sentimentos no meu pai. Mas percorremos em silêncio o restante do trajeto, lutando contra o sono. Seguindo agarrados a ideia do conforto de chegar em casa.

O amor bate na aorta - Drica Moraes (Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sob o pré-córdio

Um corpo deita numa cama. Sem roupas, sem esperança e sem convicções. Nu. Completamente nu. Existindo. Se há um sentimento de calma em algum lugar é dentro do corpo. No cérebro. Mas esse corpo já não sabe que vias neurológicas ativar para se sentir bem. TUM TÁ, ele ouve. E eis que a resposta possa ser o famoso coração. Um estetoscópio pousa sobre o foco aórtico... pulmonar... tricúspide... mitral... 81 batimentos por minuto. Nada mau, o cérebro pensa. Nada mal para um corpo sedentário. O som é hipnotizante. Forte, claro, rítmico. Cada batimento representa o sangue pulsando, percorrendo aquele corpo, o nutrindo, o limpando. E pra quê? Para que ele se perca vida afora? O corpo vê a si mesmo e se ouve. O coração não para nunca. O cérebro tampouco. O ruído do ar entrando pelas vias respiratórias se mistura ao TUM TÁ. Os pulmões se enchem. Oxigênio e gás carbônico trocam de lugar. O cérebro pensa que todas as células vivendo juntas, como um só ser, podem ser só células acreditando ser alguém. Um monte feito de células se arrastando em meio a um mundo microbiológico dominado pelas bactérias, as verdadeiras donas do mundo. Elas diriam: "não há ninguém aí, amontoado de células". Tudo o que ele faz é dividir tarefas e tentar sobreviver. Contraindo as pupilas cada vez que a luz bate nelas. Protegendo a pele da radiação UV, com a melanina. Usando o oxigênio do ar para obter energia e, depois, se livrando dele o mais rápido possível para que ele não mate o corpo. Pagando com ATP cada movimento visível ou não. Até o corpo precisa de uma moeda para pagar os custos. Cada coisa mínima, como alterar a conformação de uma proteína, ou cada coisa complexa, como o batimento rítmico do coração, existe para nos permitir viver aqui, nesse pequeno grão de areia Terra. Mas às vezes o corpo repousa nu sobre a cama sentindo a maciez desta, ouvindo o barulho da chuva, vendo os raios cortarem os céus,  saboreando os resquícios de uma pasta de dentes sabor menta e sentindo o cheiro de sabonete. Quando ele sente o próprio pulsar, o calor que carrega, os ruídos de si mesmo, a própria vida que representa, quando ele apenas é... Ele percebe que o pensamento pode ter sido um acidente evolutivo, que faz tudo parecer um grande nada.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Fluxo

Era cortante aquela dor. Queria um pouco mais de doçura. Um pouco mais de compreensão. Mas eu nunca fui boa nisso. Até as palavras fogem de mim agora. E no meu mundo sinto-me só. Nada é o bastante. A raiva nunca passa. Apenas se transfere. Ultimamente já não durmo amaldiçoando a vida. A mesma que quero viver. Olho o contorno cortante do espelho e me pergunto se eu teria coragem. Choro por culpar a mim mesma. Se eu não sorrio é por minha culpa. Se você não sorri a culpa deve ser minha também. Eu queria esquecer minhas angústias, mas elas só se acumulam dentro de mim. Eu as confronto sob todas as perspectivas e ainda assim a solução me foge por entre os lábios. Às vezes eu procuro um ‘eu te amo’ em um abraço ou em uma conversa, mas ele nunca vem. Em alguns momentos posso vê-lo, mas ele quase nunca me alcança, pois meu escudo o repele. Uma palavra me machuca. Um olhar ‘errado’... Eu não consigo respirar nesse corpo. Vejo as pessoas partindo, voltando para suas próprias vidas. Pouca gente fica. Às vezes me pergunto se restou alguma porta pra mim. Sono, esquecimento, loucura e morte? Passei por todas e nenhuma delas. Estou no limbo. Trancada. Sufocada. Exausta. Nenhuma mão vai me salvar. Eu estou a beira do precipício. Mas está escuro, ninguém pode me ver.

sábado, 5 de julho de 2014

Bloqueio

No silêncio da noite as primeiras palavras vindas a mente começam a ser escritas. Apenas o barulho das teclas quebra ocasionalmente aquela quietude. Há sentimentos transbordando. Medo. Angústia. Felicidade. Amor. Paz e guerra no mesmo corpo. Poucas palavras que os expressem.

domingo, 9 de março de 2014

Prisões inapropriadas

Há uma sala com um jogo de espelhos. Tantas imagens se refletem nela que você já não sabe quem é você nem onde está. As imagens então pegam um livro e se sentam no centro da sala branca, vazia. Uma distração ou uma obrigação, talvez. Nenhum espaço para pensar. Há gente demais nesses espelhos. Mas algumas palavras flutuam no ar e se aproximam de uma das imagens. É a verdadeira ou apenas uma cópia do passado? Os traços da face da menina são os mesmo em todos os espelhos. A roupa, o jeito, o olhar... tudo o mesmo. Contudo, pensam elas a mesma coisa? As frases dançam perto daquela imagem específica. São tão verdadeiras e profundas que são como um portal que se abre revelando cenas devastadoras. De repente, aquela única garota começa a chorar. As outras ainda leem calmamente seus livros pretos. Ela, porém, se desespera e grita. Ninguém se move. Ela chuta os espelhos ao seu redor, mas eles não se quebram. É uma redoma que se criou ao seu redor e ela não viu. Mais e mais palavras chegam. Há tantas que ocupam o espaço do oxigênio. A garota começa a se sufocar em suas próprias palavras, literalmente. Então, quando ela quase sumia em meio àquela multidão de frases todas as outras imagens a veem e choram por ela. Os reflexos levantam uma mão como que para tocar-lhe a face e dizem: “Você precisa se livrar dessas palavras ou elas lhe consumirão e você será só uma redoma negra nesse jogo de espelhos. Ainda assim, a sua dor ficará e manchará a todas nós.” A menina então nota uma das imagens sentada longe observando a cena. Os olhos daquela não choram ou sorriem. Nem ela mesma. Ela também não carrega nenhum livro. Assustada e cada vez mais presa às suas palavras ela grita: “Quem é você aí sentada que não se importa comigo?” Entretanto, nenhuma resposta vem ao seu encontro. O tempo se estende sem pressa até que se ouça uma voz ecoar pelos espelhos. “Eu sou a única verdadeira entre vocês. O único eu que existe, vive e pensa. E vocês não são nada senão o meu reflexo, cada qual com seus pensamentos e histórias. Mas ainda assim são ‘eus’. Mas hoje há tantas imagens presas nesse lugar que às vezes me esqueço de mim e me deixo passar por qualquer uma. Existem tantas que não sei se criei mesmo todas vocês. E, sendo assim, já não me importo com quase nada (e isso inclui você, cara amiga, morrendo pelo quê não disse)” As imagens param. Todas com as mãos levantas e uma espremida entre uma parede de vidro e um fundo negro. Só uma se move, tristemente, entre elas. Ignorando os espelhos e passando de sala em sala, como um fantasma. Olhando cada uma daquelas estranhas gêmeas de perto sem, entretanto, compreendê-las. A garota volta para a sua redoma e observa a cena parada infinitamente. Fecha os olhos por um segundo e quando os abre vê duas mãos com unhas vermelhas. Elas seguram um livro de capa vermelha onde lê-se “sexo por recomposição”. Muitas coisas poderiam se pensar a partir daí, mas uma outra menina esquece de devaneios e se concentra no texto sobre a reprodução da Drosophila. O tempo nesse mundo não pausa, muitas palavras a esperam ainda.

segunda-feira, 3 de março de 2014

O Teatro Mágico - Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou




"Eu não sei na verdade quem eu sou,
Já tentei calcular o meu valor,
Mas sempre encontro sorriso e o meu paraíso é onde estou...
Por que a gente é desse jeito
Criando conceito pra tudo que restou?"

15 minutos para o fim do 18

     Aqui estou: parada em frente a uma tela, esperando que as palavras certas pintem a tela. Sem saber por onde começar se não há início e se tudo parece tão gasto.
     Certa noite recebi uma ligação comum e tudo o que pude fazer desde então foi chorar. Às vezes com lágrimas noutras sem. Não consegui por paz nem por segundo na minha mente. É como se meu coração tivesse partido, mas eu não soubesse porquê. Desde então, qualquer detalhe me perturba. Eu já não acho ar para respirar ou chão no qual pisar. Não há nada além de mim sentada na beira de um penhasco a observar nuvens volumosas crescendo no céu. Posso sentir os raios.
      Noutra noite, pouco mais conturbada, sinto a contagem de mais um ano se aproximando da minha vida. Choro por ver em mim alguém que não sou. Choro por ver o que não posso ser. Choro por não achar palavras nem saber falar. Por medo, decepção e incerteza.
   Uma fórmula para não se sentir assim seria ótima, tudo que tenho são sorrisos como um alívio momentâneo. Talvez uma ligação inesperada no meio da noite te faça bem. Pode ser que a verdade te faça mal.
      Eu estou aqui, agora. Minha cabeça girando. Pensamentos gritando. E uma promessa de liberdade que eu já não tenho. Esta noite é a hora de dizer "até mais" para algumas coisas. Hora de adeus.