domingo, 9 de março de 2014

Prisões inapropriadas

Há uma sala com um jogo de espelhos. Tantas imagens se refletem nela que você já não sabe quem é você nem onde está. As imagens então pegam um livro e se sentam no centro da sala branca, vazia. Uma distração ou uma obrigação, talvez. Nenhum espaço para pensar. Há gente demais nesses espelhos. Mas algumas palavras flutuam no ar e se aproximam de uma das imagens. É a verdadeira ou apenas uma cópia do passado? Os traços da face da menina são os mesmo em todos os espelhos. A roupa, o jeito, o olhar... tudo o mesmo. Contudo, pensam elas a mesma coisa? As frases dançam perto daquela imagem específica. São tão verdadeiras e profundas que são como um portal que se abre revelando cenas devastadoras. De repente, aquela única garota começa a chorar. As outras ainda leem calmamente seus livros pretos. Ela, porém, se desespera e grita. Ninguém se move. Ela chuta os espelhos ao seu redor, mas eles não se quebram. É uma redoma que se criou ao seu redor e ela não viu. Mais e mais palavras chegam. Há tantas que ocupam o espaço do oxigênio. A garota começa a se sufocar em suas próprias palavras, literalmente. Então, quando ela quase sumia em meio àquela multidão de frases todas as outras imagens a veem e choram por ela. Os reflexos levantam uma mão como que para tocar-lhe a face e dizem: “Você precisa se livrar dessas palavras ou elas lhe consumirão e você será só uma redoma negra nesse jogo de espelhos. Ainda assim, a sua dor ficará e manchará a todas nós.” A menina então nota uma das imagens sentada longe observando a cena. Os olhos daquela não choram ou sorriem. Nem ela mesma. Ela também não carrega nenhum livro. Assustada e cada vez mais presa às suas palavras ela grita: “Quem é você aí sentada que não se importa comigo?” Entretanto, nenhuma resposta vem ao seu encontro. O tempo se estende sem pressa até que se ouça uma voz ecoar pelos espelhos. “Eu sou a única verdadeira entre vocês. O único eu que existe, vive e pensa. E vocês não são nada senão o meu reflexo, cada qual com seus pensamentos e histórias. Mas ainda assim são ‘eus’. Mas hoje há tantas imagens presas nesse lugar que às vezes me esqueço de mim e me deixo passar por qualquer uma. Existem tantas que não sei se criei mesmo todas vocês. E, sendo assim, já não me importo com quase nada (e isso inclui você, cara amiga, morrendo pelo quê não disse)” As imagens param. Todas com as mãos levantas e uma espremida entre uma parede de vidro e um fundo negro. Só uma se move, tristemente, entre elas. Ignorando os espelhos e passando de sala em sala, como um fantasma. Olhando cada uma daquelas estranhas gêmeas de perto sem, entretanto, compreendê-las. A garota volta para a sua redoma e observa a cena parada infinitamente. Fecha os olhos por um segundo e quando os abre vê duas mãos com unhas vermelhas. Elas seguram um livro de capa vermelha onde lê-se “sexo por recomposição”. Muitas coisas poderiam se pensar a partir daí, mas uma outra menina esquece de devaneios e se concentra no texto sobre a reprodução da Drosophila. O tempo nesse mundo não pausa, muitas palavras a esperam ainda.

segunda-feira, 3 de março de 2014

O Teatro Mágico - Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou




"Eu não sei na verdade quem eu sou,
Já tentei calcular o meu valor,
Mas sempre encontro sorriso e o meu paraíso é onde estou...
Por que a gente é desse jeito
Criando conceito pra tudo que restou?"

15 minutos para o fim do 18

     Aqui estou: parada em frente a uma tela, esperando que as palavras certas pintem a tela. Sem saber por onde começar se não há início e se tudo parece tão gasto.
     Certa noite recebi uma ligação comum e tudo o que pude fazer desde então foi chorar. Às vezes com lágrimas noutras sem. Não consegui por paz nem por segundo na minha mente. É como se meu coração tivesse partido, mas eu não soubesse porquê. Desde então, qualquer detalhe me perturba. Eu já não acho ar para respirar ou chão no qual pisar. Não há nada além de mim sentada na beira de um penhasco a observar nuvens volumosas crescendo no céu. Posso sentir os raios.
      Noutra noite, pouco mais conturbada, sinto a contagem de mais um ano se aproximando da minha vida. Choro por ver em mim alguém que não sou. Choro por ver o que não posso ser. Choro por não achar palavras nem saber falar. Por medo, decepção e incerteza.
   Uma fórmula para não se sentir assim seria ótima, tudo que tenho são sorrisos como um alívio momentâneo. Talvez uma ligação inesperada no meio da noite te faça bem. Pode ser que a verdade te faça mal.
      Eu estou aqui, agora. Minha cabeça girando. Pensamentos gritando. E uma promessa de liberdade que eu já não tenho. Esta noite é a hora de dizer "até mais" para algumas coisas. Hora de adeus.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Então, adeus.

Uma foto me mordeu hoje. Havia nela um rosto familiar escondido. Olhos doces me espiavam através da tela, mas estavam bravos comigo. Como você está? - eu me indago. Sei que essa pergunta também seria feita para mim, em tom sincero, de alguém cujo coração emanava bondade. Parece um retrato pouco realista da vida ou de uma pessoa, mas eu via assim. Eu via o melhor. Acho que ainda vejo. Mas eu magoei e aos poucos tomei essa mágoa pra mim, como se toma um delicioso copo de chocolate quente.
Voltei no tempo. O que me fascinava tanto, afinal? A franqueza inata. Só pode ser. Estava lá pintada sorrindo, gritando e, talvez, esperando. Eu me convenci de que as coisas podiam ser e esperei. A vida me mostrou que estava certa, mas não podia ter feito tudo de maneira mais errada. Nunca gostei disso de “certo” ou “errado”. Viver é mais do que adjetificar os nossos feitos. Contudo, pelo menos agora, eu tenho que admiti que errei.
Errei por não me deixar ser conhecida. Errei por não consegui perdoar. Errei por não entender. Errei por não ter forças para voltar atrás. Errei por deixar olhos tão bons zangarem-se comigo. Errei. E meu maior engano, foi não ter tirado lições de todos esses erros. Foi ter feito apenas um texto. Com palavras que nunca disse. Que nunca criei. Que apenas vomitei, junto com uma ausência que sempre me perseguiu.
Eu disse “não”, porque queria um “sim” maior. Um sim eterno, sob meu controle. Esqueci que há vontades além das minhas. E que tanto palavras como atos podem levar a amplas interpretações. Interlocutores doentios quando acham-se donos do destino do outro ou do seu próprio. Não há script aqui. Só escolhas que não se cruzam. Futuros obscuros. Poderemos ser donos do nosso amanhã? Espero que sim e tenho cada vez uma convicção maior que não. Sem certeza de quem somos hoje, como saberemos da pessoa que se esconde no futuro? E as escolhas do amanhã são feitas por ela, não por nós.

Todavia, isso era sobre olhos doces, zangados e tristes. Olhos de quem compartilhava o passado e as lágrimas sem medo. Há alguém aqui que também fazia o mesmo. Essa melancolia era um elo forte demais para ser quebrado. Pelo menos até o dia em que ela resolveu descansar e dar espaço à felicidade verdadeira, escondida na forma de paz. Aí já não havia nada a conectar. Tudo deixou de ser si mesmo. E o futuro converteu-se em presente, implacável. Deixando olhos sorrindo a me espiar.

domingo, 13 de outubro de 2013

Uma Sofia a mais

           Sinto-me escorregando pela pelagem do coelho. Os olhos do grande mágico agora são apenas uma lembrança distante. Quanto fito o local onde deveriam estar, já não há mais estrelas, ou céu. Pouco a pouco tudo se torna branco. Vejo a base cada dia mais próxima. É desconfortável estar no meio do caminho. Tento subir, mas é uma escalada de difícil. Tão mais cômodo seria deixar-me levar. Entretanto, conforto é um lugar perigoso também. 
           Todos esse pelos não permitem uma visão clara. Parece tão ruim não saber o truque do qual fazemos parte. Em que palco estamos? E, no entanto, se isso nos fosse revelado, que graça teria essa jornada? Talvez, ela nem existisse. Parece inconcebível uma vida sem questões a serem respondidas. Por isso me agarro firme aos pelos. Não posso cair. Somente algumas respostas ou mais perguntas poderão me oferecer a razão que necessito para continuar. Mas não se aborreça comigo, grande Mágico, por eu tentar descobrir como tudo se passa. Pode ser em vão, mas eu preciso descobrir se estou dentro da cartola.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Porque não são apenas sonhos

      

    Lia a tantos dias, que já nem lembrava quem eu era. Estava imersa naquilo, com um misto de fascinação e raiva. O céu estava lindo lá fora, mas eu não podia sair. Mesmo assim, eu me dedicava. As minhas causas haveriam de ser maiores que o meu bem-estar momentâneo. Pelo menos era o que eu pensava. Então, veio a notícia...
     Não dava para saber a causa do meu desnorteio. Era a notícia em si, as consequências irreparáveis na vida alheia ou a quebra da rotina na minha? Não sei. O fato é que eu parei. Aquilo não dizia respeito a mim, mas tinha a ver com vidas. E vidas se quebram mais fácil do que pode parecer.
     Lágrimas surgiam nos meus olhos. Não era a minha dor ali. Mas havia tristeza no ar. A vida é valiosa. E eu estou pronta para a minha. Essas lágrimas que escorrem são a prova que eu precisava. Eu sou capaz de amar. E você?

     Eu sou capaz de viver por mim. Então, só precisamos ir, sem “mas”. Vamos por aí descobrir o mundo. Sair, apesar de tudo. Os planos vão se concretizar no que depender de mim. Sei disso porque nunca fui do tipo que faz lista de desejos. Nem do que se comove tão facilmente. Mas hoje eu chorei de um modo sincero. E percebi que são apenas desculpas me impedindo de partir. Vou comprar uma mochila e colocar um sonho na estrada.

domingo, 22 de setembro de 2013

Lembranças

        Uma varanda eis surgindo desbotada numa lembrança. Dois sentam-se ao chão. Há um cheiro no ar. É quase fúnebre. Quase, porque algo é doce. Ah, devem ser os sorrisos disfarçando olhares tristes.

    A imagem desaparece como uma fotografia sendo queimada. Antes, porém, uma confissão. E, seguida a ela, um sentimento empático -“Isto é lindo”- seguido por um beijo que nunca foi.